Quando Autoesporte levou um Lada Niva para enfrentar o ‘inferno paraguaio’


Acompanhar a dureza do rali Transchaco, no Paraguai, a princípio parecia uma boa oportunidade para testar as qualidades do Lada Niva 4×4, pela própria aventura e condições adversas das estradas, trilhas e muito pó intercalado com barro, como indicava a previsão do tempo.
Mas foi na verdade uma temeridade, como constatou-se mais tarde, pois o pequeno Niva, totalmente original, parecia frágil demais quando colocado ao lado de potentes e equipados veículos 4×4 japoneses, europeus e americanos que competiriam na prova.
Reportagem publicada originalmente em Autoesporte número 318, de novembro de 1991
O primeiro contato com a terra aconteceu em trecho de 123 quilômetros, rumo à Bolívia, já distante 1.600 quilômetros de São Paulo. Lugar bonito, de estrada com muitos buracos e pontes de madeira nem sempre em bom estado de conservação. Como era preciso fazer fotos, o Niva enfrentou a estrada na frente até um local assinalado por um paraguaio como ideal para fotografar os carros em disparada no meio da poeira — ou do barro, se chovesse.
Um pouco de off-road noturno também fez parte do roteiro no Paraguai
Autoesporte/Acervo MIAU
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De manhã cedo, com o sol já se mostrando, deu para chegar a tempo em um desvio da estrada, em meio a um prado, com gado solto à distância e um largo, cortando a linha original da estrada. Ali, marcas de pneus. Indagamos se era possível passar, com alguma incredulidade. Paradas no local, algumas picapes Toyota 4×4 com guinchos elétricos indicavam que pelo menos os competidores iriam tentar.
Era preciso seguir à frente e, por isso, o Niva foi colocado primeiro de traseira no lamaçal, pois não dava para ver se era fundo. Em três tentativas, pareceu que seria possível atravessar. Agora de frente, o carrinho foi devagar, resmungando, afundou na lama e andou uns dez metros até parar, tracionando em vão. Com o bloqueio do diferencial engatado, deu para voltar de ré, com muita dificuldade, mas o caminho era para a frente, não para trás.
Nova tentativa, agora com um pouco mais de firmeza, e o Lada não decepcionou: chacoalhou para os lados e berrou com força, mas saiu do outro lado. Aplausos gerais da pequena plateia do pessoal de apoio que estava nas Toyota.
Terrenos alagados foram um dos desafios enfrentados pelo utilitário russo
Autoesporte/Acervo MIAU
Isso, porém, foi apenas o primeiro teste. Os competidores do rali começaram a chegar e era preciso tentar seguir à frente deles, para garantir fotos. Andar naquelas estradinhas de terra, entretanto, cercadas de vegetação agressiva com espinhos de até um palmo de comprimento e ainda tendo que suportar potentes carros off-road, como três Toyota Celica, que andavam a mais de 200 km/h, encostando em sua traseira, foi um tormento.
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Para a frente nenhuma visão devido ao pó, enquanto o ponteiro do velocímetro do Niva grudava nos 100 km/h; nas laterais nenhuma saída e, obrigatoriamente, era preciso abrir espaço para os competidores. Foi loucura total mas, diversas vezes, a única alternativa foi cair mesmo para a vegetação, com os perigos que isso representava. Se houvesse um buraco, adeus aventura!
O Niva urrou, pulou como um louco, derrapou desesperadamente e freou bruscamente tantas vezes que o mais lógico era esperar uma quebra a qualquer momento. Mas o carrinho provou que tem uma ótima suspensão, pois, com três pessoas da equipe de Autoesporte, suas bagagens, dois tambores de água, gasolina sobressalente no teto, ferramentas, geladeira portátil etc., ainda levava o próprio peso.
Em diversas oportunidades não havia estrada e o caminho era pelo mato
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Foi bom chegar ao povoado militar de Mariscal Estigarríbia, já junto à Bolívia, um estratégico ponto que, uma vez por ano, se transforma com o circo do Rali Transchaco, de roupas coloridas e um exército de mais de mil veículos de apoio que acompanha os competidores.
Nesta noite choveu e fez frio. A etapa seguinte, portanto, teria o pó substituído pelo barro. Com visibilidade a segurança seria maior, embora o terreno escorregadio exigisse muito do carro e do motorista. AÍ foi a vez de observar o Niva contorcendo-se entre competidores mais ágeis a enfrentar curvas enlameadas a 100 km/h. Isso durou a manhã inteira, com rápidas paradas para fotos.
Em uma localidade chamada Desvio Línea 1, foi preciso sair do roteiro original em busca de combustível. Essa fuga mostrou um quadro completamente diferente: paisagem bonita e comunidades agrárias completamente isoladas. Aqui, o árido do Paraguai dá lugar à agricultura e pecuária organizadas.
De volta a São Paulo, depois de percorrer mais de 5.000 quilômetros, sendo quase três mil deles no duro Chaco paraguaio, entre estradas de terra e trilhas, deu para sentir a coragem do Niva. Em média o consumo ficou em oito quilômetros por litro e, apesar das agruras passadas, nem mesmo um pneu foi furado. O carrinho foi um companheiro de todo momento e terreno.
Inferno paraguaio
O Niva ainda carregou três pessoas e equipamentos durante o teste
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A principal característica do Rali Transchaco é a velocidade em estradas e trilhas bem ruins. Em sua 18ª. edição, a de 1991, foram quase três mil quilômetros de percurso, disputados em três dias consecutivos, com temperaturas que se aproximaram dos 40 graus e muito pó, primeiro, e depois chuvas torrenciais que transformaram os caminhos em atoleiros. A vegetação agressiva, com espinhos enormes, completa o cenário da competição, não injustamente apelidada de “Inferno Paraguaio”.
Mesmo apenas terminar a prova sempre tem sabor de vitória e heroísmo. Vencer o rali, então, é ser idolatrado em todo o país, que acompanha cada movimento pelos jornais, rádio e TV. Pequenos aviões, caminhões e milhares de picapes 4×4 formam um exército de apoio às equipes. Mesmo assim, o índice de abandono por quebra é muito alto.
Este ano foi considerado bom: dos 103 veículos que largaram, 45 chegaram. A maioria é de pilotos amadores paraguaios — de fora, desta vez, apenas duas equipes argentinas e uma brasileira, a Internacional Racing Turbogás Cofap, com um Gol 1.8 pilotado por Reinaldo Varela, tendo como navegador um grande conhecedor do Chaco, o paraguaio Luís Panza.
Pausa para visita à turma de apoio da única equipe brasileira no rali
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A disputa entre os paraguaios é acirrada, pois muitos já conhecem o Chaco quase como a palma da mão. A equipe Toyotoshi inscreveu três Celica 4×4 e a Lada estreou na prova com três Samara e um batalhão de veículos de apoio. A maior parte dos demais veículos era de modelos VW Gol, de fabricação brasileira, além de outros Toyota, Ford Escort europeu, Ford Sierra, alguns Peugeot, Alfa Romeo, Lancia, Nissan, Fiat, Subaru, vários Fuscas, VW Voyage e um Golf GTI preparado na Alemanha.
Na definição da ordem de largada, feita no circuito misto de Aratirí, nas imediações de Assunção, o Golf GTI ficou na frente, seguido do Gol brasileiro de Varela/Panza. A partida, na noite do dia seguinte, lotou a praça do Centro Cultural da capital paraguaia, assim como as laterais da longa avenida que serviu de corredor para a saída, rumo ao primeiro Posto de Controle (PC), a 280 quilômetros.
“Não entrem nas trilhas” foi a orientação geral recebida. O Chaco, pela imagem transmitida, teria onças, ladrões, espinhos traiçoeiros e lamaçais intransponíveis. Diante disso o Niva parecia frágil e vulnerável: além de não contar com guincho, ao contrário da maioria, carregava somente um estepe, enquanto quase todos os demais tinham três. A equipe Lada, porém, tomou algumas precauções, como levar em seu comboio dois caminhões 6×6 Kamaz com três metros de altura.
O início foi pela longa estrada de asfalto que corta o Paraguai rumo à Bolívia, com destino aos PCs 1 e 2, sem chuva. Nada de anormal aconteceu neste primeiro trecho, propício para quem curte velocidade: Reinaldo Varela contou que foi ultrapassado por um dos Toyota Celica como se estivesse parado enquanto rodava a 170 km/h.
Depois que a poeira baixou, graças à chuva, o terreno ficou lamacento
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A chegada a Ávalos Sanchez, onde iniciaria o segundo trecho, se deu quando a manhã já começava a aparecer. Seriam mais 169 quilômetros, rumo a Cruce Loma Plata, e, sem descanso, a largada aconteceria em alguns minutos. Foi preciso sair na frente, em busca de bons locais para tomada de fotos.
Passaram os primeiros carros do rali. A dupla Penner/Planás na frente, com o Golf, Varela/Panza em segundo e os Toyota Celica em seguida, mantendo ainda as posições da largada. Após a passagem de um dos competidores foi a hora de meter o Niva no seu vácuo e pegar terra também, para logo em seguida ser acossado por carros na traseira pedindo passagem a 130, 140, 150 km/h — era impossível andar a menos de 100 km/h e, a todo momento, tínhamos que jogar o Niva numa trilha cercada de espinheiros para dar passagem a alguém, apesar do perigo que isso representava.
De Mariscal Estigarríbia saem as duas etapas finais, a primeira desenhando uma alça de 664 quilômetros rumo à Bolívia, indo para Norte e Oeste, e a segunda retornando para o Sul, rumo a Assunção.
Apesar dos 5.000 km de agruras, não houve sequer um pneu furado
Autoesporte/ Acervo MIAU
No segundo dia da prova muitos já haviam desistido, inclusive o brasileiro Reinaldo Varela, com falhas no motor do Gol. O Golf GTI voltou da segunda etapa com problemas, embora ainda na liderança, mas perdeu tempo nos reparos, caindo para a terceira colocação e logo depois também abandonando.
No terceiro dia muito barro, mas, pelo menos, sem o pó que reduzia a visibilidade a zero. E novamente o Niva teve que provar seu valor, andando nos 100 km/h. Foi uma etapa dura, mas bonita, e graças a um combustível emprestado foi possível chegar a Pozo Colorado, final da prova, ainda a tempo de ver a equipe Toyotoshi comemorar a vitória do Celica 4×4 de Marco Galanti e Óscar Ramirez. Em segundo chegou o VW Gol de Oscar Sandoval e Leandro Barrua, ficando outro Toyota em terceiro (um Corolla da dupla Lafarga/Ahyala) e, em quarto, o Peugeot 505 de Barros/Signonino. A Lada comemorou o 15º, 23º e 26º lugares de seus Samara, classificação considerada boa para uma estreante.
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