
A primeira apresentação de um artista, o primeiro jogo de um atleta, o primeiro voo de um avião… todas as estreias têm seu charme. Claro que algumas delas entram até para a história. Outras, pelo menos, rendem uma boa história. A minha com o BYD Atto 2 começou há pouco menos de um ano, na China. Fui até o outro lado do mundo para testar o SUV com exclusividade para a Autoesporte e tive a oportunidade de ser a primeira jornalista do mundo a dirigir o modelo.
Quase um ano depois, o Atto 2 chega às lojas no Brasil — e eu tive mais uma vez a chance de ser a primeira jornalista a testá-lo, desta vez, claro, em solo nacional. Agora, a missão é entender como o novo BYD se comporta nas condições do nosso mercado e avaliar, na prática, o seu principal argumento: a eficiência. Afinal, o único SUV compacto híbrido plug-in (PHEV) flex disponível no mercado é realmente mais econômico que os rivais?
Visual do BYD Atto 2
Antes de chegar nesse quesito, vamos ao contexto. Para começo de conversa, embora seja um carro novo, o Atto 2 não é totalmente inédito por aqui. Isso porque a versão elétrica, chamada de Yuan Pro, é vendida por aqui há dois anos. E além da motorização, a dupla tem algumas outras diferenças visuais.
Os faróis mantêm o mesmo formato, com a luz de rodagem diurna na parte de baixo, mas o Atto 2 ganhou um conjunto óptico com arranjo mais moderno. O para-choque também mudou e tem uma abertura maior na parte inferior para ajudar na refrigeração. Já as lanternas continuam interligadas por uma barra luminosa. Ou seja, no geral, o desenho segue praticamente igual.
BYD Atto 2 tem lanternas interligadas por barra luminosa
Renato Durães/Autoesporte
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Preços e versões do BYD Atto 2
Agora vamos aos preços. O BYD Atto 2 chega ao Brasil em duas versões e já com montagem (por enquanto em esquema SKD) em Camaçari (BA). A de entrada, chamada de GL, passou a ser tabelada em R$ 166.660 recentemente, mas ainda aparece em promoção por R$ 149.990 – o mesmo valor anunciado no lançamento, em junho. Já a configuração topo de linha GS, justamente a testada por Autoesporte, segue custando R$ 169.990.
BYD Atto 2 DM-i GL: R$ 166.660
BYD Atto 2 DM-i GS: R$ 169.990
E os concorrentes? Bem, rivais diretos, não há. O SUV é o primeiro de porte compacto equipado com sistema híbrido plug-in no nosso país. Por isso, precisamos olhar para modelos que tenham faixa de preço e proposta semelhantes.
BYD Atto 2 está à venda em duas versões no Brasil
Renato Durães/Autoesporte
É o caso, por exemplo, do Toyota Yaris Cross, um SUV compacto híbrido pleno (HEV) que custa R$ 189.990 em sua opção mais equipada, a XRX Hybrid. O Jaecoo 5 vai entrar nessa disputa em breve com a mesma motorização híbrida convencional. No entanto, ainda não teve o preço divulgado.
E ainda que seja híbrido, o Atto 2 também quer roubar a venda dos tradicionais do segmento. Neste caso, a opção mais cara concorre diretamente com o Volkswagen T-Cross Extreme, com motor 1.4 turbo, que chega a custar R$ 194.590, e com o Hyundai Creta Ultimate, equipado com um 1.6 turbo, que está tabelado em R$ 201.590. Ou seja, o SUV da BYD é pelo menos R$ 20 mil mais barato que os rivais – e isso já o torna bastante competitivo.
Motorização do BYD Atto 2
A motorização é outro argumento importante do Atto 2. Todas as versões são equipadas com motor 1.5 aspirado flex de quatro cilindros com injeção direta, que entrega 97 cv, combinado a um propulsor elétrico. É exatamente o mesmo conjunto utilizado no Song Pro flex e tudo é gerenciado pelo câmbio automático do tipo e-CVT, que dispensa as trocas de marchas convencionais e gerencia eletronicamente a atuação dos motores.
BYD Atto 2 GS é o segundo SUV compacto mais potente do Brasil
Renato Durães/Autoesporte
Só que há uma diferença na entrega de potência entre as versões – e isso acontece por conta das diferentes baterias. A versão GL, com capacidade de 7,9 kWh, é capaz de desenvolver 177 cv de potência combinada, enquanto a GS chega a 197 cv com bateria de 18 kWh. O torque máximo é de 30,6 kgfm nas duas opções.
Por isso, com 197 cv, o Atto 2 GS entra na parte de cima da disputa entre os SUVs compactos mais potentes do mercado. Afinal, fica acima até dos 185 cv do esportivo Fiat Pulse Abarth. Isso significa que só não aparece no topo desse ranking por causa dos 224 cv do Jaecoo 5.
Desempenho do BYD Atto 2
BYD Atto 2 GS acelera de 0 a 100 km/h em 9,9 segundos
Renato Durães/Autoesporte
Na prática, porém, a potência não garante o melhor dos desempenhos para o Atto 2. Nos testes da Autoesporte, realizados no Rota 127 Campo de Provas, o SUV precisou de 9,9 segundos para ir de 0 a 100 km/h – bem abaixo dos 8,4 s divulgados pela BYD. Desta forma, é 2,1 s mais lento que Creta Ultimate e Pulse Abarth, ambos com 7,8 s. Também fica 1,3 s atrás do T-Cross Extreme, que fez a mesma prova em 8,6 s.
Por outro lado, o Atto 2 ainda é 1,1 s mais rápido que o Yaris Cross XRX Hybrid, que leva 11 s para chegar aos 100 km/h. O peso de 1.620 kg precisa ser levado em conta no resultado. Afinal, é cerca de 320 kg mais pesado que os rivais diretos justamente por conta da bateria.
Frenagem do BYD Atto 2
A massa extra, aliás, também pesou (literalmente) na hora da frenagem. Para parar completamente vindo de 100 km/h, o Atto 2 precisou de longos 43,4 metros — mesmo tendo freios a disco nas quatro rodas. Entre os concorrentes citados, teve a pior marca. O SUV da Volkswagen, por exemplo, fez o mesmo teste em apenas 37,9 metros, mas pesa 1.305 kg.
Consumo do BYD Atto 2
Portanto, é no consumo que o Atto 2 encontra seu argumento mais forte. Na cidade, registramos 9,5 km/kWh e 166,7 km/l, sempre com gasolina e ar-condicionado ligado. Ou seja, os números mostram que o motor a gasolina praticamente não precisou ser acionado durante o trajeto de 30 km usado pela Autoesporte como padrão para o teste urbano.
Ou seja: praticamente todo o percurso foi feito usando apenas a energia armazenada na bateria, o que explica o consumo de combustível tão baixo. Desta forma, a autonomia projetada é de 172 km no modo exclusivamente elétrico – bem mais do que os 75 km homologados pelo Inmetro na versão GS. Na GL, são 33 km, também no padrão oficial do Brasil.
BYD Atto 2 GS pode rodar até até 172 km com uma só carga de bateria
Renato Durães/Autoesporte
Na estrada, porém, o cenário muda. Com o motor flex entrando em ação com frequência muito maior, o Atto 2 registrou 22,2 km/l. Na comparação, fica bem acima dos 14,4 km/l entregues pelo Yaris Cross. Esse número também representa uma autonomia estimada de 999 km em rodovias considerando o tanque de 45 litros. Por isso, somando os 172 km projetados no modo elétrico, o SUV poderia percorrer cerca de 1.171 km sem precisar parar para reabastecer ou recarregar.
BYD Atto 2 GS tem bateria de 18 kWh
Divulgação/BYD
Como todo bom híbrido plug-in, o segredo da eficiência está no gerenciamento de energia e alternância entre os motores a combustão e elétrico.
Tal estratégia permite que o motor 1.5 trabalhe em condições favoráveis de economia, como em velocidades de cruzeiro. É exatamente esta situação que a máquina elétrica é usada apenas para complementar as entregas de potência e torque, entregues de modo instantâneo.
Além disso, a recuperação de energia acontece não só nas desacelerações e frenagens. É possível usar o motor a combustão para carregar a bateria. De todo modo, o gerenciamento faz com que o Atto 2 mantenha sempre uma reserva de energia e continue alternando entre os motores para aproveitar as vantagens de ser híbrido.
O único problema está na hora de recarregar a bateria na tomada. Isso porque o BYD não suporta cargas rápidas. Então aceita, no máximo, carregamentos de 3,3 kW (GL) ou 6,6 kW (GS) em corrente alternada (AC). Isso significa que são necessárias cerca de 3 horas para completar a bateria de 18 kWh. Portanto, faz falta um carregamento mais rápido em corrente contínua.
Dirigibilidade do BYD Atto 2
Para compensar, Atto 2 surpreende ao volante por ter uma suspensão bem calibrada, assim como o irmão Yuan Pro. Mesmo que use eixo de torção na traseira, a solução mais simples é capaz de controlar os movimentos da carroceria sem deixar excessivamente firme. Junto disso, ainda absorve bem as irregularidades do asfalto e não fica pulando depois de passar por uma ondulação. Em curvas de alta velocidade, o SUV também transmite segurança.
É uma clara evolução em relação a outros modelos da BYD, como Dolphin Mini e Song Pro, que só receberam ajustes em atualizações posteriores ao lançamento.
BYD Atto 2 GS está à venda por R$ 169.990
Renato Durães/Autoesporte
O torque instantâneo do motor elétrico faz o Atto 2 responder rapidamente ao comando do acelerador. É uma característica que aparece tanto nas saídas de semáforos quanto nas retomadas em estrada. Prova disso é que precisou de 5,5 segundos para retomar de 60 km/h a 100 km/h, também nos nossos testes.
Em acelerações mais fortes, quando o motor é acionado, a rotação pode subir, mas ainda assim as arrancadas são suaves e silenciosas. Só que o pedal do freio é mais alongado e exige uma pisada mais profunda para parar o SUV por completo. Pelo menos a resposta fica mais imediata quando selecionamos o modo Esportivo. Além dele, há mapas Eco e Conforto.
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A direção segue uma lógica parecida. No modo Conforto, o volante é anestesiado e transmite pouca informação ao motorista. É confortável para o uso urbano, mas não empolga quando a estrada fica mais sinuosa. Ao selecionar o Esportivo, porém, a direção ganha peso e melhora bastante na sensação de controle.
Uma ótima notícia para quem gosta de personalizar a experiência é poder alternar a firmeza da direção e dos freios independentemente do modo de condução selecionado. Ou seja, mesmo no Esportivo, o volante pode ficar macio, macio.
Equipamentos do BYD Atto 2
BYD Atto 2 GS tem cabine minimalista, com poucos botões
Renato Durães/Autoesporte
Em equipamentos, o Atto 2 tem uma lista recheada desde a versão de entrada: traz seis airbags, sensores de estacionamento dianteiros e traseiros, monitoramento da pressão dos pneus, freio de estacionamento eletrônico, controle de cruzeiro adaptativo, frenagem autônoma de emergência e vários outros assistentes de condução. A opção topo de linha ainda adiciona alerta de ponto cego, de mudança de faixa e de colisão frontal, por exemplo.
A câmera 360° merece destaque. A qualidade da imagem é excelente e o sistema mostra a distância em centímetros, tanto durante as manobras em marcha a ré, quanto nas laterais do carro. É um recurso que facilita bastante na hora de estacionar. De todos os assistentes à condução, a única crítica fica para o leitor de placas de velocidade, que aciona um som incômodo sempre que identifica uma mudança no limite da via.
BYD Atto 2 tem painel de instrumentos de 8,8 polegadas
Renato Durães/Autoesporte
Sentando no banco do motorista, o acabamento impressiona — principalmente quando a gente lembra que o Atto 2 custa menos que todos os seus rivais. Enquanto alguns abusam do plástico rígido, o SUV da BYD traz material macio ao toque em toda a parte superior do painel. Nas portas dianteiras, há material emborrachado. Os bancos são de couro ecológico ou de tecido na versão de entrada.
O Atto 2 também traz algumas mudanças em relação ao Yuan Pro. Aquela manopla de câmbio bonita que fica no console central saiu de cena e agora o seletor de marchas está posicionado na coluna de direção. E há ainda menos botões.
BYD Atto 2 tem alavanca de troca de marchas posicionada na coluna de direçã
Renato Durães/Autoesporte
Por isso, todos os comandos do ar-condicionado de duas zonas são feitos pela multimídia. Vale lembrar que há “atalhos”. Basta arrastar três dedos para os lados para alternar a velocidade do ventilador. Se o movimento for vertical, a temperatura é ajustada.
Falando em tela, a da versão GS tem 12,8 polegadas é não é mais giratória. Curiosamente, na GL, o aparelho de 10,1 polegadas segue com a curiosa função. As duas contam com Apple CarPlay e Android Auto sem fio e funcionam muito bem. E tem um detalhe que chamou atenção: os mapas que costumam travar quando conecto meu celular, dessa vez funcionaram perfeitamente. Além disso, a interface é bastante intuitiva e facilita encontrar as principais funções.
O painel de instrumentos mantém a tela de 8,8 polegadas nas duas opções. A diferença é que, na configuração mais cara, o sistema já conta com os serviços do Google. Além do Google Maps nativo, dá para projetar a navegação diretamente no cluster — inclusive quando você usa o Waze.
BYD Atto 2 GS tem central multimídia de 12,8 polegadas
Renato Durães/Autoesporte
Importante dizer que teto panorâmico, iluminação ambiente, carregador de celular por indução, banco do motorista com ajustes elétricos e rebatimento elétrico dos retrovisores só estão disponíveis na versão topo de linha.
Dimensões do BYD Atto 2
As dimensões são praticamente as mesmas da versão elétrica: 4,33 metros de comprimento, 1,83 m de largura, 1,67 m de altura e 2,62 m de entre-eixos. A versão híbrida é só 2 cm mais comprida, por conta dos para-choques, e 1 cm mais baixa.
Na comparação com os rivais, o Atto 2 é 11 cm mais comprido que o T-Cross e tem um porte bastante próximo ao de modelos como Creta e Yaris Cross. Já as rodas são sempre de liga leve de 17 polegadas, mas são apenas 16 cm de distância do solo, uma das menores medidas entre os SUVs compactos. Ainda assim, o carro não teve dificuldades na hora de passar por valetas ou rampas – o ângulo de aproximação é 18°, enquanto o de saída é 23°.
BYD Atto 2 GS tem porta-malas de 455 litros em uma medição de litros de água
Renato Durães/Autoesporte
No porta-malas, a BYD informa 455 litros de capacidade. Só que essa medição usa um padrão diferente do VDA, usado por Autoesporte e por grande parte da indústria automotiva. Na metodologia da marca chinesa, a medição é por litros de água, e não por blocos de isopor. Por isso, um volume mais generoso.
No entanto, como o Atto 2 não tem estepe (usa um kit de reparo com selante), sobra espaço para acomodar objetos sob o piso, o que ajuda a aproveitar melhor o bagageiro, que está longe de ser dos maiores da categoria. A tampa do compartimento não tem abertura elétrica, diferente do rival Yaris Cross.
Se o porta-malas deixa um pouco a desejar, o Atto 2 compensa no conforto para quem vai no banco traseiro. Ainda que tenha 3 cm a menos de entre-eixos que o T-Cross, o espaço interno do BYD é muito bem aproveitado. Para pessoas de até cerca de 1,80 m, o espaço é suficiente tanto para as pernas quanto para a cabeça.
BYD Atto 2 tem saída de ar-condicionado na segunda fileira desde a versão de entrada
Renato Durães/Autoesporte
O assoalho praticamente plano também ajuda, principalmente para quem vai no meio. E como o Atto 2 é mais largo que todos esses rivais, consegue acomodar três passageiros na segunda fileira com mais conforto. Além disso, há saída de ar-condicionado dedicada desde a versão de entrada — uma evolução importante em relação ao Yuan Pro.
BYD Atto 2 tem rodas de liga-leve de 17 polegadas
Renato Durães/Autoesporte
Agora preciso voltar quase um ano no tempo para fechar este teste. Quando dirigi o Atto 2 pela primeira vez, na China, terminei a avaliação dizendo que o SUV tinha tudo para se tornar um dos carros mais emplacados da BYD no nosso país. E ainda deixei o desafio: podiam me cobrar. Quase um ano depois, chegou a hora de acertar as contas.
Depois de testar o carro novamente, e com a confirmação de preço, equipamentos e a motorização flex, mantenho aquela previsão. O Atto 2 combina preço competitivo, consumo que impressiona, ótimo acabamento e uma lista de equipamentos completa. Ou seja, é um carro que entrega muito pelo que custa e que reúne argumentos importantes para entrar de salto alto na disputa dos SUVs compactos.
A própria BYD, aliás, tem uma expectativa ambiciosa: vender cerca de 5 mil unidades por mês, praticamente todas para pessoas físicas. Olhando para o ranking de vendas da Fenabrave no varejo, o volume é suficiente para liderar o mercado de SUVs compactos.
Se vai chegar nesse número, só o mercado vai dizer. Mas, depois de testar o Atto 2 nas condições brasileiras, uma coisa ficou clara: a aposta continua de pé.
Pontos positivos: acabamento acima da média, consumo excelente e custo-benefício;
Pontos negativos: desempenho, pedal do freio alongado e recarga lenta.
Testes: BYD Atto 2 GS 2027
BYD Atto 2 GS 2027
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