Carro fica mais barato com acordo Mercosul e União Europeia? Veja impactos


Nos últimos dias, foi anunciado que aconteceria a assinatura do Acordo entre Mercosul e União Europeia. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou nas discussões, afirmando que o momento da assinatura seria aquele e que caso não ocorresse, não ocorreria mais… Mera pressão política, pois o anúncio foi adiado mais uma vez e deve ficar agora para janeiro de 2026.
Conversei com alguns jornalistas sobre a possibilidade da assinatura e antecipei o que aconteceria… Ou melhor, o que não aconteceria. Não sou vidente, apenas utilizei a lógica. Como um assunto pendente de resolução há mais de 25 anos poderia ser resolvido em dez dias? Não dá.
Não é da noite para o dia que um assunto destes terá resolução, haja vista envolver diversos setores econômicos estratégicos, como agricultura, de diversos países diferentes, como França, Bélgica, Itália, Polonia, Áustria, Irlanda e Hungria, todos contrários ao acordo.
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Novo Jeep Compass na fábrica em Melfi (Itália): acordo pode estimular sinergias de desenvolvimento de novos veículos entre Mercosul e UE
Divulgação
O processo jurídico não é simples e a assinatura, conforme já afirmei, ainda demandará tempo, pois um acordo desta magnitude passa por diversas fases: negociações entre as partes, revisão legal, tradução para 25 línguas entre os países que fazem parte do bloco europeu, assinatura, internalização das normas discutidas (que, no Brasil, envolve os poderes Executivo e Legislativo) e, finalmente, a confirmação pelo chefe do Poder Executivo daquilo que foi pactuado.
Óbvio que os agricultores europeus estão com receio da competitividade de uma das agriculturas mais desenvolvidas do mundo, a brasileira, e não conseguem enxergar benefícios de qualquer ganho desta relação neste momento ou, muito menos, compreender que o início dos benefícios tributários entre as partes acontecerá apenas daqui há muitos anos, possibilitando tempo para adequarem suas produções, desenvolverem outros cultivos ou abrirem novos mercados.
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Como o acordo entre Mercosul e UE afeta a indústria automobilística brasileira
A integração entre Mercosul e União Europeia forma um bloco gigante. Estima-se, com dados de 2025, que, juntos reúnam entre 720 e 740 milhões de pessoas com um Produto Interno Bruto estimado em aproximadamente US$ 22 trilhões de dólares tornando-se, desta forma, um dos maiores blocos em volume de comércio a serem formados.
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Com o início da vigência do acordo entre as partes, haverá uma redução de tarifas de importação e exportação de veículos e autopeças, o que provavelmente barateará custos, deixando os produtos fabricados na região mais competitivos. Por aqui, poderemos também contar com os efeitos benéficos e plenos da reforma tributária a partir de 2033.
Aos fabricantes de carro instalados no Mercosul, haverá uma porta de oportunidades num mercado maduro e de múltiplas opções. Com os produtos adequados, conseguiremos ampliar nosso comércio com o que a região consegue produzir melhor: hatches, sedãs, picapes e SUVs pequenos.
Na ânsia por inovações tecnológicas de redução de carbono, a indústria automobilística europeia investiu alto em motores a combustão ao longo dos últimos 20 anos. Os veículos elétricos se tornaram um problema e os híbridos se mostram uma solução viável em diversos mercados.
Neste contexto, a opção pelo híbrido flex (gasolina/etanol) atenderia a demanda pela descarbonização europeia sem a necessidade de tantos aportes, bastando investimentos na geração ou importação de etanol, que tem produção muito restrita naquele continente.
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Sob um outro aspecto, existe também a própria colaboração entre os fornecedores de autopeças já presentes nos dois blocos e que, trabalhando em conjunto, se aproveitariam das sinergias existentes e poderiam ganhar escala.
Por fim, e não menos relevante, ressalto que a atuação da indústria chinesa, em especial no mercado brasileiro, pode indicar que este país enxerga tais oportunidades como uma via estratégica de acesso ao mercado europeu. Em outras palavras, trata-se de uma otimização de seus investimentos na região, com foco no longo prazo, diante da perspectiva de facilitação da entrada de veículos no Velho Continente caso sejam produzidos localmente após a implementação do acordo.
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Num cenário de alta competitividade, não observo espaço para a produção de veículos de luxo no Mercosul. A decisão lógica, pela proximidade de preços e maior escala de produção europeia, seria a manutenção deste mercado na própria Europa, igualmente mais próxima geograficamente da Ásia, outro polo consumidor deste tipo de produto em volume.
Os Estados Unidos, atualmente em processo de concentração industrial, continuariam sendo abastecidos pela Europa, lembrando que até lá muita coisa poderia ser alterada em relação às questões geoeconômicas.
A qualidade dos produtos fabricados no Mercosul, em especial dos fornecedores, poderia ser posta em dúvida, pois sofreria com a competição de produtos produzidos sob processos produtivos europeus, mais eficientes. Penso que Certificadoras Internacionais, como o IQA, teriam importância crescente no processo de amadurecimento desta indústria nos próximos anos.
A capacidade produtiva, economia de escala e a capacidade tecnológica poderiam ser igualmente entraves para a competitividade da indústria automobilística do Mercosul em relação à europeia. Com preços mais competitivos no exterior, poderíamos ser esquecidos e ficaríamos à mercê das inovações externas, dificultando o desenvolvimento de soluções regionalizadas.
Nunca é tarde para começar a atuar com os pontos críticos, mas, para isto, é necessário foco, inteligência e planejamento. Para a indústria automobilística, 2030 já é amanhã!
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