Por que caminhões vão virar autônomos antes dos carros de passeio?


A corrida pelos veículos autônomos segue a todo vapor, em diferentes frentes, como automóveis, caminhões e ônibus, além de acontecer em regiões diversas. Recentemente, os chineses parecem ter roubado o protagonismo. Por lá, além de já oferecer experiências comerciais de transporte por aplicativo sem motorista, o último Salão do Automóvel de Pequim foi uma amostra de veículos de passeio de autonomia nível 3, que já são capazes de fazer curvas sozinhos, estacionar e desviar de objetos.
Mas são nos veículos pesados que a tecnologia de condução sem a necessidade de motoristas deve se tornar realidade primeiro. Aliás, no cenário internacional, o nível 4 de autonomia em caminhões já é realidade.
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Em 2019, a Scania apresentou um conceito de caminhão autônomo sem cabine, denominado AXL. O modelo, monitorado remotamente, foi criado para atuar em áreas controladas e operar em locais como minas e canteiros de obras.
Conceito de camimhão autônomo da Scania, AXL usa sensores, câmeras, radares e lidares para monitorar o ambiente em volta
Divulgação
Em janeiro deste ano, foi a vez da Iveco apresentar um novo projeto. Desta vez a produção do veículo pesado, ainda em testes, tem como objetivo avançar seu nível de complexidade e fazer transporte de cargas. O trajeto sugerido é entre as cidades de Madrid e Zaragoza, na Espanha, um percurso de cerca de 300 km.
No Reino Unido, o porto de Felixstowe utiliza dezenas de caminhões sem cabine para transportar contêineres de forma ininterrupta, otimizando o fluxo das cargas e reduzindo o tempo de movimentação e melhorando a logística.
Caminhão Autônomo usado no porto de Felixstowe, no Reino Unido
Getty Images/Bloomberg
Além de ações isoladas, praticamente todas as principais fabricantes de caminhões têm suas divisões de desenvolvimento de veículos autônomos. Volvo, Daimler (dona da Mercedes-Benz), Man e até a Tesla são alguns exemplos. Também há uma lista de startups que criaram veículos comerciais conceitos sem a necessidade de um condutor.
Para explicar a evolução dos autônomos, Autoesporte conversou com Carlos Delich presidente da ZF América do Sul. A multinacional é uma das maiores fornecedoras de autopeças do mundo, e também trabalha no desenvolvimento de novas tecnologias de mobilidade, com a produção de sensores, radares, câmeras, sistemas avançados de assistência ao motorista e plataformas de processamento de dados.
Para Delich, o nível 5, ou seja, o mais avançado, deve ser alcançado primeiro nos veículos de grande porte, devido a menor complexidade de ações:
“Os caminhões autônomos de nível 5 tendem a chegar antes dos carros totalmente autônomos porque operam em um ambiente muito mais previsível e controlado. O transporte rodoviário de carga possui rotas pré-definidas, longos trechos de rodovias, menor complexidade de interação urbana e operações logísticas estruturadas”, afirmou.
Veículos autônomos no Brasil
No Brasil, apesar de os passos em direção à autonomia serem mais lentos, o pensamento é o mesmo. Segundo o executivo, atividades dos setores primário e secundário serão os primeiros a receberem a tecnologia: “O desenvolvimento dos caminhões autônomos no Brasil depende de fatores técnicos, regulatórios e de infraestrutura. Em operações controladas, como mineração, agronegócio, portos e centros logísticos, essa evolução tende a acontecer primeiro”.
Atualmente, a Vamos, empresa de locação de veículos pesados, já oferece o Agronomous, uma versão modificada de caminhão da Volkswagen que pode operar de forma autônoma nos campos.
Em operações no campo, caminhão autônomo já é realidade
Divulgação
Delich comenta ainda que mesmo com um longo caminho pela frente, o país já possui recursos e projeta os desafios: “Do ponto de vista tecnológico, muitos recursos já existem. Sensores, radares, câmeras, softwares avançados e processamento embarcado permitem automação crescente. O desafio agora é garantir uma integração segura e escalável”, conclui.
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Apesar das discussões já estarem aquecidas, a expectativa do executivo é de que a produção de veículos autônomos nível 4 continuem em expansão até 2030. Já autônomos de nível 5, por sua vez, devem começar a ser inseridos no mercado apenas em 2040.
Quais são os níveis de autonomia existentes?
Quando falamos em veículos autônomos, o primeiro passo é classificar o nível de tecnologia disponível. Atualmente, há seis diferentes escalas, variando de assistências simples, que já estamos acostumados, a circulação completa sem auxílio humano em nenhuma ação. Segundo o SAE, entidade de engenharia, os níveis são:
Nível 0 – Não há autonomia. Processos, como aceleração e condução são feitos de forma manual. Este nível, que representa a grande parte dos carros produzidos até hoje, pode conter, contudo, sistemas de auxílio como frenagem de emergência;
Nível 1 – Aqui os veículos possuem uma ferramenta simples de autonomia, como o ajuste de cruzeiro adaptativo e um sistema de assistência que ajusta a velocidade do veículo automáticamente. Neste nível é necessário que o motorista mantenha suas mãos no volante;
Nível 2 – Conta com pelo menos dois sistemas de auxílio ao motorista funcionando ao mesmo tempo, na condução e frenagem/aceleração, a partir de movimentos feitos pelo veículo à frente. Aqui, a supervisão humana a todo tempo ainda é necessária. Os sistemas Autopilot da Tesla e Super Cruise da Cadillac (General Motors) são ambos classificados como Nível 2. Ainda nesta prateleira, o nível 2+ permite pequenas melhorias na autonomia, capazes de lidar com situações de trânsito mais complexas, mas ainda com atenção humana indispensável;
Nível 3 – Permite que o veículo seja capaz de, além de controlar condução, frenagem e aceleração, se adaptar melhor ao ambiente. A ultrapassagem de carros que estão lentos é uma das funções possíveis. Apesar da maior independência da máquina, o cuidado humano é preciso caso as atividades autônomas não sejam concluídas com sucesso.
Nível 4 – Considerado como Autonomia avançada, o nível 4 tem a capacidade de conduzir e corrigir falhas por conta própria. Uma intervenção só se apresenta necessária caso o veículo esteja em condições adversas, como o clima. Apesar de contarem com maior independência, funcionam apenas em ambientes controlados.
Nível 5 – Representa autonomia plena, em que o veículo opera em qualquer lugar e sob qualquer condição, sem comando humano. Veículos com este nível de autonomia, contudo, ainda não existem.
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