
Com a chegada do verão, o número de carros parados no acostamento com o capô aberto tende a aumentar. Não é coincidência. O calor intenso exige mais do sistema de arrefecimento e pode fazer o motor trabalhar em temperaturas mais altas, especialmente quando há algum componente fora do padrão. O problema não surge apenas em viagens longas: congestionamentos, uso constante do ar-condicionado e falta de manutenção agravam o cenário. A explicação começa em um princípio básico da física:
“O calor sempre flui do corpo mais quente para o mais frio, e essa troca é mais eficiente quanto maior for a diferença de temperatura entre eles”, explica Clayton Zabeu, professor de Engenharia Mecânica do Instituto Mauá de Tecnologia.
No verão, como o ar ambiente já está quente, a diferença de temperatura entre o radiador e o meio externo diminui. Com isso, o motor perde calor com mais dificuldade e pode operar mais próximo do limite ideal, principalmente se houver qualquer restrição no sistema de arrefecimento.
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A grande maioria dos carros de passeio e caminhões utiliza um sistema de arrefecimento líquido. Nele, um fluido composto por água desmineralizada e aditivos anticorrosivos circula pelo motor, absorvendo calor, e segue para o radiador, onde essa energia térmica é dissipada para o ar.
Em dias muito quentes, esse processo se torna menos eficiente. “O líquido de arrefecimento encontra mais dificuldade para trocar calor com o ambiente quando a temperatura externa é elevada”, afirma Zabeu. É por isso que as ventoinhas entram em funcionamento com mais frequência no verão, tentando compensar essa perda de eficiência.
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O uso do ar-condicionado também pesa na conta. O condensador do sistema fica à frente do radiador e aquece o ar que passa por ele. Na prática, o radiador do motor recebe um fluxo de ar mais quente, o que dificulta ainda mais a dissipação de calor. Em um carro em bom estado, esse aumento é pequeno e totalmente administrável. Quando a temperatura sobe além do normal, o problema geralmente está associado a falhas em algum subsistema.
Fluido vencido, válvula termostática e outros equívocos comuns
Válvula termostática é o “coração” do sistema de arrefecimento do carro
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Um dos mitos mais recorrentes é o de que o fluido de arrefecimento “vencido” causa superaquecimento imediato. Segundo o professor, a troca periódica é importante para evitar corrosão interna, formação de depósitos e degradação dos aditivos, mas não costuma ser a causa direta de fervura do motor. “A substituição do fluido é uma medida preventiva. Não é esperado que o motor superaqueça apenas porque o líquido está fora do prazo”, explica.
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A válvula termostática também costuma ser apontada como vilã injustamente. Sua função é manter o motor dentro da faixa ideal de temperatura, controlando a circulação do fluido entre motor e radiador. “Não é correto dizer que ela falha mais no calor extremo. O que acontece é que, em condições severas, outros problemas comprometem a troca térmica”, diz Zabeu. Um exemplo comum é o radiador com aletas amassadas ou obstruídas, muitas vezes danificadas por lavagens com jato de alta pressão. Nesses casos, retirar a válvula irá apenas mascarar o defeito real.
Ventoinha, carga extra e uso severo
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André Schaun
O eletroventilador é acionado por sensores que informam à central eletrônica a temperatura do líquido de arrefecimento. Quando determinados limites são ultrapassados, a ventoinha entra em ação para acelerar a dissipação de calor. Se ela falha por problema elétrico, motor queimado ou sensor defeituoso, o risco de superaquecimento aumenta rapidamente, sobretudo no trânsito urbano.
Viajar com o carro carregado, enfrentar subidas longas ou rodar em estrada sob calor intenso não deveria causar problemas em um veículo em bom estado. “O sistema de arrefecimento é dimensionado para suportar condições extremas, mas possíveis. O superaquecimento só aparece quando algum componente já está comprometido”, ressalta o engenheiro.
Temperatura subiu: qual é a atitude mais segura
Ao perceber a elevação anormal da temperatura, a recomendação é parar o carro assim que for possível e em local seguro. Abrir o reservatório de expansão com o motor quente é perigoso. “Pode haver liberação de vapor sob pressão, com risco sério de queimaduras”, alerta Zabeu.
Se a temperatura ainda estiver abaixo do limite crítico indicado no painel, é possível seguir até um posto próximo, sempre com cuidados: desligar o ar-condicionado, evitar acelerações fortes e manter o motor sob carga mínima. Qualquer sinal de fervura exige parada imediata.
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Choja/Getty Images
A melhor forma de não ficar na estrada no verão é a manutenção preventiva. Verificar periodicamente se há vazamentos, conferir o estado e a tensão da correia da bomba-d’água (quando ela não é acionada por corrente), observar resíduos no reservatório que indiquem corrosão e checar se o radiador está limpo, desobstruído e sem deformações são medidas fundamentais.
“O calor não cria o problema. Ele apenas evidencia algo que já não estava funcionando corretamente”, resume Clayton Zabeu.
Cuidar do sistema de arrefecimento não só evita transtornos em dias quentes, como também protege o motor, um dos componentes mais caros e sensíveis do automóvel.
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