
Desde o fim de julho, quem trafega pelas principais vias de São Paulo depara-se com um alerta em letreiros luminosos: “Motociclista, cuidado! Só no ano passado, 475 pessoas morreram em acidentes de moto”. A iniciativa, do prefeito Ricardo Nunes, não nasceu do acaso. Os avisos começaram a piscar poucas horas depois de a Justiça Federal liberar o serviço de mototáxi por aplicativos na cidade.
A reação do município foi imediata. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) acolheu recurso da Prefeitura e suspendeu o credenciamento da Uber. O impasse agora aguarda julgamento definitivo, mantendo de pé a proibição imposta desde 2023 sob o argumento de que a modalidade pode elevar ainda mais os números de acidentes.
Trnasportar passageiros em motos por apps é proibido em São Paulo (SP)
Divulgação
Empresas como Uber e 99 defendem a operação sob o argumento de que a motocicleta atende a deficiências no transporte público e segurança. Para o trabalhador que, ao desembarcar do ônibus, precisa ainda enfrentar distâncias superiores a 1 km até chegar em casa, o serviço complementaria o sistema público, reduzindo inclusive a exposição ao risco de assaltos nos pontos de parada.
O Brasil é o sexto maior produtor mundial de motocicletas. Desde 2021, as vendas de motos novas crescem, em média, 19% ao ano. Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) indicam que, em 2025, foram comercializadas 2,197 milhões de unidades no mercado interno, superando o volume de automóveis, que somou 1,99 milhão.
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As projeções para 2026 estimam aumento de mais 10%, para 2,416 milhões de unidades — um salto de 124% em relação ao patamar pré-pandemia. A expansão da frota foi acelerada por mudanças nos hábitos de consumo e no mercado de trabalho durante a crise sanitária. A alta dos combustíveis, o aumento dos preços dos carros e a busca por alternativas ao transporte coletivo favoreceram o setor de duas rodas.
Produção de motos cresceu no Brasil ao longo dos últimos anos
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Simultaneamente, o avanço do comércio eletrônico e do delivery criou uma nova opção de ocupação e primeiro emprego. A dinâmica do batalhão de entregadores é marcada pela flexibilidade: eles cruzam as cidades atendendo a múltiplos aplicativos ao mesmo tempo. Nos municípios que permitem mototáxis, muitos alternam entre entregas e transporte de passageiros, dependendo dos horários de pico.
O crescimento da frota revela os desafios na gestão de tráfego e de saúde pública. Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), mais de 60% dos acidentes automobilísticos fatais no país envolvem motociclistas.
Briga por espaço na cidade fica mais caótica todos os anos
Vitória Drehmer/Autoesporte
Iniciativas de engenharia viária, como faixas exclusivas para motos em grandes avenidas e áreas de recuo nos semáforos, resolvem — em parte — a cada vez mais caótica disputa por espaço entre veículos de duas e de quatro rodas. O quadro provoca atritos de convivência e aumenta a poluição sonora. Sem falar na questão da segurança, já que é por meio de duas rodas que muitos criminosos agem.
O nó que São Paulo tenta desatar mostra que nem intervenções pontuais de sinalização nem disputas judiciais serão capazes de conter esse caos. A convivência pacífica e a segurança no trânsito dependem, sobretudo, de políticas públicas e de muita fiscalização.
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