
O March — chamado de Micra em outros países — é um carro histórico para a Nissan. A primeira geração foi lançada em 1983, mas foi na segunda, dez anos depois, que o hatch se sagrou Car of the Year na Europa. É uma das premiações mais conceituadas daquele continente, equivalente ao Carro do Ano no Brasil. Com essa bagagem, foi lançado aqui em 2011 e teve vendas comedidas até dar adeus, em 2020.
Só que agora o March se transformou. Sua sexta geração é uma reconversão do novo Renault 5 E-Tech, com design exterior muito diferente do primo francês. De certa forma, é a magia da indústria atual, que permite essa “elasticidade” de produzir automóveis com aparências distintas sobre estruturas replicadas ao milímetro. E o designer da Nissan que me apresentou o March antes de eu dirigi-lo pelas ruas apertadas de Millbrook (Reino Unido) não escondeu sua ligação com a Renault.
Nissan March Evolve é baseado no Renault 5 E-Tech
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March e Renault 5 se diferenciam principalmente por alguns painéis externos e pelo acabamento. Fora isso, todo o resto é compartilhado — inclusive o acerto de suspensão, a resposta eletrônica, a eficiência energética e a sensibilidade dos comandos. Os automóveis também saem da mesma fábrica na França.
Essa foi a fórmula encontrada pela marca japonesa para ter um hatch elétrico capaz de rivalizar com o BYD Dolphin com rapidez e custos de desenvolvimento mais baixos, aproveitando as sinergias com sua parceira. O objetivo é que, até 2027, 40% dos carros novos da Nissan vendidos na Europa sejam elétricos — o resultado atual é de 10%. Até lá, a Nissan continua vendendo o SUV médio Ariya como o único totalmente eletrificado de seu catálogo.
Elétrico tem faróis que lembram “olhos”, que, por sua vez, piscam quando motorista aproxima a chave do carro
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O novo March tem 3,97 metros de comprimento (5 centímetros maior que o Renault 5). Ele foi inspirado na terceira geração, lançada em 2003, a primeira a incorporar faróis dianteiros com formato oval. Essa linguagem estética se mostra em enormes linhas circulares que atravessam um grupo óptico horizontal. Te lembra algo? É uma clara referência ao símbolo da Nissan. Nesse quesito, a ideia era dar uma aparência amigável ao compacto elétrico.
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A Nissan aproveitou esse formato de “olho” para fazer outra graça. Quando o motorista se aproxima do hatch com a chave, o jogo de luzes coreografado “pisca” para ele. Ainda sobre o visual externo, é possível criar uma imagem mais esportiva com o teto pintado numa cor diferente do restante da carroceria, de preto ou prata.
Cabine lembra muito a das novas gerações de carros da Renault. Qualquer semelhança das telas e do volante com os do Boreal não é mera coincidência
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A cabine também “cheira a Renault 5”, com diversos elementos compartilhados. Algumas de suas superfícies de toque suave não existem no irmão francês. O March tem duas telas de 10,1’’ para painel de instrumentos e central multimídia, que tem Android Auto e Apple CarPlay, além de GPS nativo com funções interessantes, como planejamento de rotas com base na autonomia do veículo e nos carregadores disponíveis pelo caminho.
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A central multimídia tem sistema integrado do Google, com menus muitos semelhantes aos que encontramos nos smartphones atuais. Intuitiva e boa de usar, a tela serve de exemplo até para veículos mais caros. Quanto à cabine, há detalhes que remetem à simplicidade da filosofia nipônica, como a imagem do Monte Fuji gravada no fundo de plástico do console central e na moldura do porta-malas. Aproveitando, o bagageiro tem 326 litros de capacidade (a mesma do Renault 5).
Nissan March Evolve
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Outros detalhes, como as costuras diagonais no topo da superfície esquerda do painel, se inspiram nos jardins japoneses. Os demais padrões de revestimentos internos são sóbrios, embora variem de acordo com a versão escolhida. São três as oferecidas: Engage, Advance ou Evolve.
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O conjunto motriz que move o novo March elétrico também veio do Renault 5: o mais acessível tem baterias de 40 kWh e 310 km de autonomia no ciclo europeu WLTP, com motor de 122 cv e 23 kgfm; já o mais sofisticado (a versão que dirigi na Inglaterra) tem bateria de 52 kWh, com 408 km de autonomia e motor de 150 cv e 25 kgfm. Vale lembrar que o irmão francês tem uma versão ainda mais simples, com bateria menor.
Pela experiência que tive com o Renault 5, as autonomias prometidas pela homologação oficial são otimistas. O resultado mais factível para a versão topo de linha fica entre 300 km e 340 km na vida real — e já adianto que, quanto menores forem os trechos de rodovias, melhor.
Em qualquer versão, potência de recarga permite recuperar entre 15% e 80% da bateria em 30 minutos; volante dá apenas 2,6 voltas entre um batente e outro
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Em relação à recarga, a versão de entrada pode ser conectada a estações rápidas de corrente contínua (DC) de até 80 kW. Para o modelo mais equipado, a capacidade é de até 100 kW. Com o kit mais generoso de baterias, o March acelera de zero a 100 km/h em 8 segundos e tem velocidade máxima limitada a 150 km/h.
Não pude comprovar essa velocidade máxima no circuito de Millbrook, onde testei o March em ambiente fechado. Infelizmente, os veículos não foram emplacados a tempo para rodar fora do autódromo. Como o Renault 5, o novo Nissan March se dá bem em curvas apertadas, é rápido nas mudanças de direção e transmite uma boa sensação do que se passa entre as rodas e o asfalto. O hatch tem três modos de condução: Sport, Comfort e Eco. Neste último, a entrega de força fica limitada a 65 cv para melhorar a autonomia.
Porta-malas tem capacidade de 326 litros
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O chassi bem acertado deixa uma pulga atrás da orelha quanto à oferta de uma versão mais potente. É algo que os executivos da Nissan não descartam, tendo em vista que o Renault 5 tem uma versão de 220 cv, a Alpine. Os amortecedores são firmes sem ser excessivamente duros, o que faz a carroceria do March quase não inclinar. O peso das baterias ajuda nesse comportamento “plantado no solo”, bem como as rodas de 18 polegadas montadas num carro de apenas 4 m de comprimento.
Não senti falta de tração no asfalto seco, mas sei que, ao menos no irmão francês, as coisas são diferentes na chuva. Há um desequilíbrio brusco na traseira, o que pode levar o March a escorregar em uma tangência mais ousada. Sua base dinâmica foi apurada para agradar o motorista mais “urbano”.
Nissan March Evolve tem rodas de 18 polegadas
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Não pude testar o March em zonas irregulares, com asfaltos mais castigados. Porém, a suspensão traseira independente (algo raro nesse segmento, até na Europa) ajuda a melhorar o conforto de rolamento e a filtrar as imperfeições.
Sobre o espaço interno, quatro adultos de 1,80 m cabem à justa, sobrando alguns poucos dedinhos entre o topo da cabeça e o teto. Um terceiro passageiro na traseira deverá ser bem magro e pequeno para evitar o aperto. O assoalho plano ajuda na liberdade de movimentos das pernas.
Hatch compacto tem Monte Fuji gravado no console central
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Diferentemente do Renault 5, o novo Nissan March tem aletas atrás do volante para ajustar o nível de regeneração das baterias. São quatro níveis, dos quais o mais intenso ativa a função “one-pedal drive”. Esse sistema tem utilização prática e funcional e os freios eletrônicos (brake by-wire) auxiliam nas respostas e na linearidade.
No disputado mercado europeu, a tendência é de que o novo March (ou Micra, como é chamado na região) venda menos que o Renault 5. No Brasil, não há planos para o modelo. Bom para o BYD Dolphin.
Nissan March Evolve
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